4# ECONOMIA 11.12.13

REFM DA POLTICA
O governo impede que a Petrobras siga as leis do mercado  e ela se afunda em sua pior crise.
MALU GASPAR

     A Petrobras viveu na semana passada alguns dos piores momentos de sua histria. Em um nico dia, 24 bilhes de reais evaporaram no maior tombo de suas aes na bolsa desde o fatdico ano de 2008, quando todo o mercado apanhou com a crise financeira mundial. O valor da empresa encolheu 10%. Tamanha queda no foi fruto de mau humor episdico dos investidores nem de um ataque especulativo. Na verdade, foi um sinal claro e contundente de que os acionistas, que h trs anos despejaram 70 bilhes de dlares no caixa da companhia para que ela se lanasse  explorao do pr-sal, se cansaram de ser scios do governo. O principal ponto de atrito  uma conta que no fecha e ceifa a autonomia e a sade financeira da Petrobras: ela compra combustvel no exterior a um preo mais alto do que vende no Brasil, um pssimo negcio que escapa  lgica de mercado. A razo  poltica. O governo controla com mo de ferro o preo do combustvel para segurar a inflao, artifcio que sabidamente no funciona a longo prazo e tem um preo alto. Daqueles 70 bilhes de dlares depositados na Petrobras, 17 bilhes j escoaram pelo ralo. 
     O que detonou o turbilho foi um comunicado oficial da empresa em que se informa que, apesar de ter autorizado um aumento de 4% no preo da gasolina e de 8% no do diesel, o conselho de administrao decidira manter secreta a frmula que baseia os reajustes. Lanou-se assim uma sombra sobre quantos aumentos haver e como sero escalonados, desencadeando um clima de incerteza. Houve quem desconfiasse at mesmo da existncia de uma frmula para o reajuste. A nota oficial fazia apenas um vago aceno sobre a crise financeira em que a Petrobras, j no limite do endividamento, est enredada: a situao vai melhorar, garantia o documento  mas em at dois anos. 
     Se soubessem quo custoso foi pr um ponto final no texto, os investidores ficariam ainda mais perplexos. Fechados por seis horas em uma sala da companhia, em So Paulo, os dez conselheiros disseram asperezas, gritaram uns com os outros e at trocaram acusaes de m-f com o dedo em riste. De um lado, o grupo do ministro da Fazenda, Guido Mantega, que no queria aumento nenhum: de outro, a diretoria da empresa, no s favorvel a uma frmula para subir os preos como  sua ampla divulgao. Preocupados com a ameaa de acionistas minoritrios de process-los por gesto temerria, os executivos haviam aprovado em reunio prvia um documento prevendo um clculo para o aumento que ponderasse, a cada trs meses, a variao do dlar e a cotao do petrleo. Irritado com a presso, Mantega bateu p, dizendo que o mecanismo indexaria a economia ao dlar e geraria ainda mais inflao. Quando finalmente o embate acabou, ningum saiu feliz e nada ficou suficientemente claro. 
     Nos ltimos dias, a presidente da empresa, Graa Foster, garantiu a interlocutores que o governo liberar o aumento dos combustveis at que alcancem valores de mercado. Ela tambm tem dito que o crescimento da produo ser decisivo para aumentar o caixa. A previso  que dobre at 2020. O problema  que atingir essa meta requer um investimento pesado  25 bilhes de dlares s em 2014, capital difcil de obter nos tempos atuais. A Petrobras est prestes a perder o grau de investimento, um atestado de sade financeira que permite captar dinheiro mais barato no mercado. Se no quiser endividar-se ainda mais, a companhia ter de cortar investimentos ou justamente cessar o subsdio aos combustveis, o que provoca calafrios em ano eleitoral. Uma das figuras mais queridas da presidente Dilma Rousseff, Graa Foster consumiu boa parte de seu cacife na briga pelo reajuste. Embora tivesse o aval de Dilma, ela anunciou o aumento sem consultar Mantega, que foi queixar-se  presidente. Dilma, ento, deu um gelo em Graa. As duas viriam a se reencontrar no ato de assinatura do contrato de concesso do campo de Libra, na semana passada. Acalmados os nimos, aguarda-se ainda uma soluo de bom-senso. Do contrrio, quem vai pagar a conta so os brasileiros. 


